Luiz Felipe Pondé esteve aqui no meu feed de noticias do facebook, apresentando dois cursos que ele montou. Os dois foram sugeridos por mim: um sobre Cristo nos seus diversos aspectos e outro sobre menos opinião e mais pensamento, ambos, como disse, sugeridos a ele pelos meus textos.
Como eu sei que isto aí tem um significado de contradição ao que eu disse sobre opinião tecerei algumas considerações sobre este curso, o que vai ter reflexos e respingos no curso sobre Cristo.
Eu defendi e defendo a posição de Gramsci sobre o homem como uma espécie de filósofo. Como pessoa de direita, elitista, Pondé, sabe que eu sou de esquerda e contradiz esta assertiva, por razões de suas escolhas politicas.
Contudo ,contudo , esta posição não é só do comunismo e de Gramsci, ela é proveniente do cristianismo, que inverteu o esquema de Platão, reconhecendo o valor da sensibilidade como fonte do conhecimento, conforme eu já expliquei em outro artigo.
Não há solução de continuidade entre o pensamento dos doutos e o das pessoas comuns: a origem é mesma, o grau de elaboração é diferente, mas este salto de qualidade não cria necessariamente barreiras entre o pensamento popular e o douto.
É certo que não é a mesma coisa, mas repito, é pensamento. Há uma diferança entre aqueles filósofos que servem de fonte aos outros e os que não têm esta capacidade, mas mesmo assim, há que ter critérios para definir esta influência, porque qualquer livro ou qualquer coisa pode ser influência para alguma coisa, para algum pensamento .
O critério decisivo aqui é lógico: a capacidade de transcender a sua época e de se universalizar, são os conceitos que determinam esta diferença, mas repito à farta, na opinião existe um pensamento, tanto quanto na forma erudita, transcendente e universalizadora.
Quem estuda a história do pensamento, e recentemente uma nova onda de pesquisa mudou um pouco a percepção desta história, vê que muitas ideias que se tornam conhecidas depois, no trabalho de grandes figuras, apareceram antes em trabalhos de outros autores e na prática social.
Thomasius antecipou muito do pensamento kantiano e mesmo David Hume. Existem antecipações de Nietzsche no século XIX e quem criou o método psicanalítico foi Breuer e não Freud.
Aquele que transcende e se universaliza pode ter pontos de contato com muitos outros criadores, assim como a criatividade na vida cotidiana ocorre frequentemente.
O fato de estas ideias não terem universalização não as conspurca , não as deslegitima.
Nós imaginamos a opinião como algo desarticulado, o famoso senso-comum. O senso-comum é aquile em que todo pensa por igual. Mas este senso-comum foi uma das bases da independência americana, através de Tom Paine e ganha aspectos interessantes na figura de Abraham Lincoln para quem “você pode enganar algumas pessoas; algumas pessoas podem enganar outras um certo tempo, mas todo mundo enganar todo mundo o tempo todo, é impossível”. De onde vem este pensamento que tem repercussão histórica , politica e social, porque revela um pragmatismo?
Ao ir votar a pessoa comum do povo tem uma razão para votar, que deve ser igual a alguns milhões. Isto não é pensamento? Não tem transcendência e universalização? Porque a trivialidade tem que ser recusada?
Não raro o cientista ou o filósofo abandonam trivialidades no seu processo de elaboração. Mas não obrigatoriamente.
Bach não é igual a Silas de Oliveira ,mas usa motivos folclóricos, ideias e temas populares , como os demais compositores.
Imagine que aquele médico perdido no século XVIII, Jenner, tivesse colocado diante de si esta barreira, douto e popular: por sua observação pura e simples inventou a vacina. Ele não se comportou como um cientista? Não produziu uma descoberta?
O que o cristianismo faz, Cristo faz, entre tantas coisas é reconhecer o valor deste pensamento, que acaba tendo influência na História, na política e na sociedade.
O pensamento puro é falso, ele está ligado no corpo aos sentimentos e emoções. Quando as pessoas vêem Cristo sofrer, uma quantidade de fenômenos legítimos surgem para compor um discurso politico, religioso, que muda a História.
A comunidade universal aparece, novos compromissos.
Os evangelhos são a expressão desta inversão na prática , valorizando a opinião, a doxa. Com exceção do evangelho de São João, os outros são narrativas populares, ideias que corriam pelo povo, pelas mentes do povo.
E no livro “ discurso filosófico da modernidade” , Habermas,falecido há três dias, afirma ,com Hegel, que existe o cristianismo popular e o dos doutos, mas ele, Habermas, ressalta que é suficiente a religião popular, pois ela é quem mantém a religião, a sua prática. Não existe o douto sem o popular, sem Cristo na cruz.
A opinião pode ser um desbaratamento, uma coisa sem nexo e sem importância, mas também entre os intelectuais isto pode acontecer .
Eu continuaria dando exemplos sem parar. O caso de Aristóteles , que fez uma doxografia de filósofos e a usou para contruir o seu próprio pensamento. Ele se referiu aos filósofos como opinadores, como doxa, contra a visão de seu mestre.
Estes dois cursos de Pondé entrarão em contradição distorsiva do papel de Cristo, mas a razão deste problema é querer enfiar no mundo do trabalho intelectual e científico conveniências politicas.
Como representante da direita brasileira “moderna”, elitista, como é, o importante é afastar o povo do conhecimento.
O objetivo é este e eu já o expliquei em outro artigo. A direita viu o socialismo real acabar e aproveita-se para sumir com a questão social e com o povo, para favorecer os seus financiadores.
Mas , como disse Goya, “a verdade triunfará.”