terça-feira, 19 de setembro de 2017

A Coréia do Norte



Para analisar o que acontece na Coréia do Norte e seu entorno,é preciso recordar como eu encaro os países do chamado “ socialismo real”.Estes regimes ofendem  a teoria e não têm fundamento.São “ gigantes” de pés de barro,prontos para cair.Como a maioria dos analistas o problema todo é o imponderável que esta situação básica provoca,mas existem alguns outros problemas ignorados.
Um dos problemas ignorados é a  relação do Japão com os Estados Unidos,porque no seu contexto ainda não acabou a 2ª Guerra Mundial,pois a Constituição nipônica é ainda tutelada.Os ataques da Coréia sobre o Japão são uma estratégia calculada para romper este equilíbrio que já devia ter sido modificado pelo passar do tempo e pela importância do Japão no mundo de hoje,aparentemente diferente do do século passado.
Digo aparentemente porque a sua continuidade pode indicar que,pelo menos da parte dos Estados Unidos,o Japão ainda é um perigo.
Os desenvolvimentos históricos do Japão até ao episódio Mishima em 1970 parecem indicar que o desejo de revanche ,principalmente insuflados pela potente direita japonesa(a qual pertencia Mishima),revelem que ,sob as cinzas,há brasa.
Outro aspecto:o físico brasileiro José Goldemberg concedeu uma entrevista ao Globonews no ano 2000 afirmando que a Coréia não tinha arma nuclear nenhuma,usando uma metáfora até engraçada:” é como se porque existe ferro nas montanhas de Minas,o Brasil estivesse com mais industriais e carros”.
De lá pra cá a situação mudou de um jeito drástico,chegando ao ponto de a Coréia poder ter,supostamente ,um arsenal próximo do dos EUA(eu não acredito).Então neste meio física/Mídia/agências internacionais,há um ruído de informação,proposital ou por incompetência  mesmo.
Mas a verdade é que a Coréia sempre fez este escarcéu para negociar nas suas bases algo que não tem nada a ver com transição para um regime democrático.É o mesmo o  que acontece em Cuba:se houvesse uma intercambiação,pelo menos comercial ,entre os EUA e Europa com a Coréia o regime tinha tudo para cair,mas o que impede isso é a China,porque ela teme uma catástrofe humanitária ,com milhões de migrantes  chegando nela,famintos e sem nada.
Não há como separar a questão da Coréia de uma transição e como ela não o quer, os elementos casuais,a falta de fundamentos naquele país e ,agora,a entrada de um doido na casa branca põem em imediata possibilidade  de acontecer aquilo que eu já pensava quando da queda da URSS):o acaso,a presença de um doidão(ou dois).A URSS, juntamente com os Estados Unidos,tinha meios de evitar,no contexto nuclear, o mais perigoso fator para o desencadeamento da guerra nuclear(que já começou[em Hiroshima e Nagasaki]{Hannah Arendt}),que eu penso que não será universal(pois só a China é aliada oportunista da Coréia).
Se houver um ataque dos Estados Unidos a China pode intervir e aí outros países podem vir a ajudá-la,mas eu não acredito,porque a China está empenhada em competir economicamente com os EUA e não sairá deste foco.

sábado, 9 de setembro de 2017

Crivella a repetição



Depois da segunda guerra,a preocupação moral com o destino da humanidade e os ventos da guerra-fria puseram fim à década de 30,de glamour e de uma relativa liberdade.Como resultado ,o jogo,que era parte desta década, sofreu um ataque conservador católico ,o qual o retirou da paisagem social brasileira até hoje.
As atitudes do prefeito Crivella,não são ,Mutatis Mutandi,diferentes do que o cristianismo católico tomou naquele período passado.Quem conhece história e  a história do Rio sabe  o que significou a sua vitória(ouviu Romário?):a vitória das igrejas evangélicas,deste novo cristianismo ,que entrou no vácuo de incertezas do catolicismo,acossado pela direita integrista e pelo marxismo.
E o preenchimento deste vácuo se dá numa forma símile de moralismo previsível contra manifestações culturais da cidade,como o carnaval e o baile funk.
Este ataque,no entanto,obedece ao mesmo mecanismo de 1948,quando os cassinos foram fechados no Brasil:” o problema não é o jogo é o que está em volta dele”,prostituição,drogas e (hoje)ideologia de gênero(a por em risco a família[“invenção genial de Deus”]).
E,na verdade,a condição objetiva para o fechamento dos cassinos e do ataque a manifestações culturais é que existe uma verdade nisto aí,quero,dizer,no discurso religioso.O Funk em si é uma manifestação cultural como qualquer outra e não há motivo para acusá-lo de nada,como tal,mas o seu entorno é discutível.O Carnaval é uma expressão legítima,mas carreia a nudez,a homoafetividade e a outras transgressões  ao mandamento divino.Sem falar nos problemas anteriores,que também estão lá.
As boemias,em todas as épocas,as festividades em geral,mundanas são herdeiras das festividades cristãs,as epifanias,que são ,dentro do fundamento religioso,glorificações de Deus.O Carnaval é um exemplo disto.
Contudo,com o fim da Idade Média e a assunção das massas,num movimento antropofágico,este sentido básico foi mediatizado por questões outras,necessidades outras,que hoje as  põem em risco (sem financiamento[como o carnaval]).
Estas festas,esta boemia,revela uma complexa realidade ,pois é difícil dizer simplesmente,no  bojo do estado de direito,que são ilegítimas.
Aquele que não é religioso,mas laico,como eu,tem uma obrigação de criticar estas mediações transgressivas,como o uso de drogas(não a homoafetividade),mas o problema das drogas,o problema da liberdade sexual só surgem, de maneira desviada e nestas festividades,porque a sociedade fecha o caminho de expressão do povo.
As necessidades legitimas de liberdade sexual não são recepcionadas pela religião(e pela sociedade[que quer impor um modelo cristão]) e a droga se tornou não só uma válvula de escape mas uma forma de identidade social,já que a nação,o estado,e as mediações de cidadania,não reconhecem o povo em suas exigências e desejos(quem é de esquerda sabe que para ser um militante hoje é quase obrigatório “ dar um tapinha”[e  a relação supostamente feita entre drogas e homoafetividade aqui nesta parágrafo não foi feita por mim,mas pela religião]).
Como não identificar  o sucesso  de Crivella e da religião política e socialmente,quando oferece às famílias uma chance de tirar os filhos das drogas?Quando oferece uma oportunidade de constituição de uma família ,para pessoas homoafetivas ,que,como quaisquer seres humanos,às vezes,entendem a sua opção só como uma forma de agressão ao meio familiar que não os aceita?
Muita gente que apoiou Crivella,o fez pensando nas vantagens eleitorais(Romário?) de uma enorme quantidade de votos,mas também nestas questões,só que,sem o conhecimento histórico,não viu que os argumentos católicos iriam se repetir,ou seja,que no meio do caminho da manifestação legitima do pensamento haveria o preconceito contra o homoafetivo,contra as festividades,supostamente causadoras do uso de drogas e contra as manifestações artísticas do povo.
A impressão que se tem é de um exclusivismo  modelar cristão,mas é pertinente,e era previsível,para quem conhece história.

O coliseu e o maracanã



Todo historiador da religião cristã sabe o papel que desempenhou o Coliseu na difusão e estabelecimento definitivo do cristianismo católico.Feito para representar as necessidades de Roma,ele acabou sendo a catapulta de uma concepção totalmente contrária.
O coliseu foi construído para ,na ampliação do Império  Romano,continuar a exercer a mesma tarefa da época republicana:os espetáculos de gladiadores(em que não era freqüente a morte dos contendores[a morte freqüente é uma invenção dos apologetas do cristianismo]{Tertuliano})serviam como pedagogia para os assistentes;era uma forma de lembrá-los de seus deveres de luta na defesa de sua “ pátria”.
O advento do cristianismo mudou isto tudo,porque esta nova força passou a representar um novo elemento cultural e político ,dir-se-ia divisionista,nesta “ pátria”.
Então os espetáculos passaram a ter uma finalidade diferente de demonstrar qual a cultura era melhor;porque os romanos deviam ser unidos em torno de um império,que,como qualquer outro,não era (totalmente)legítimo(principalmente para os dominados[que se rebelavam cada vez mais]{na medida em que não eram aceitos}).
A violência cresceu e como todo mundo sabe ,a violência  excessiva (re-)volta-se contra quem a pratica.Os processos de repressão aos “estrangeiros” são direcionados igualmente para a sociedade romana ,a qual ,cansada dos espetáculos de destruição,acaba por ouvir os gritos dos perseguidos na arena.
Desde a época de Calígula,os cultos de Isis,a mãe dos deuses egípcios ,tinha mais força e adesão do que os deuses romanos,notadamente pela matrona romana,muito reprimida pelo pater famílias.
Estes cultos são a base do futuro culto da Virgem,que consagra um papel mais importante para a mulher ,no âmbito do cristianismo,fator que coopta com mais força ainda a mulher romana.
Pouca gente sabe que a fusão do cristianismo com o Império romano,sob Constantino,tem na figura de Santa Helena,mãe deste último,um fator decisivo.
O momento histórico em que o cristianismo começa a vencer o paganismo é quando em volta do coliseu,figuras de santos cristãos martirizados se tornam mais procurados e vendidos do que as figuras dos lares e penates,que eram mais populares em priscas eras.
Não vou me ater à tese de Umberto Eco,sobre o papel do riso na fixação do cristianismo,porque ela não é provada.
O que me interessa aqui é fazer uma comparação com o Maracanã.


Maracanã Adeus!


Parafraseando a expressão do livro de Edilberto Coutinho,nós temos que reconhecer que somos herdeiros,como os povos latinos, da tradição Greco-romana e que um dos fatos que depõem a favor disto é a edificação do estádio.
Este estádio reuniu gerações de cariocas e fluminenses em lembranças(a começar da derrota de 1950)e moldou aquilo que já era característica  do Rio de Janeiro:ser a matriz cultural e espiritual do Brasil.
Nos últimos anos ,e eu tenho denunciado isto aqui,há um esforço de São Paulo de tirar o futebol do Rio de Janeiro,num movimento semelhante à transferência da capital.A ida para  Brasília,no entanto,era uma exigência histórica que não acabou(embora tenha abalado)o Rio de Janeiro.
A saída do futebol para mim,terá este significado mais efetivo de destruição final.
Num horrível documentário recente ,realizado por cronistas de São Paulo,aparentemente sobre Friedenreich,a narrativa da evolução do futebol brasileiro ignora por completo o Rio de Janeiro,quando qualquer um sabe que o futebol brasileiro só se consolidou(como o cristianismo)quando o estádio do Maracanã foi erguido,menos para a Copa do Mundo do que para reconhecer a força inarredável do futebol brasileiro,que se espraiou e se tornou  um fenômeno social brasileiro ao se fixar no Rio.
O eixo Fluminense e Flamengo é o da evolução do futebol brasileiro.Primeiro o Fluminense é o mais importante clube a reconhecer o futebol e surgiu como clube de Futebol.De uma dissensão dentro do Fluminense nasceu o Flamengo que se tornou o clube de massas ,não só do Rio mas do Brasil todo,como o Nordeste ,que é massivamente Flamengo.
Independentemente destas considerações esportivas,o fato é que o Rio é a caixa de ressonância cultural do Brasil ,na sua especificidade histórica,porque os valores nacionais diferenciados do país foram formados e permanecem aqui.
São Paulo é uma metrópole capitalista típica.Ela se aproximava mais do Brasil enquanto existia a cultura caipira,que foi extinta por este mesmo modo-de-produção.Mas o Rio expressa a miscigenação,as diferenças de classe;expressa arte e a cultura do Brasil,as grandes discussões sobre a modernidade e assim por diante.30 só valeu quando feita aqui e embora em 64 se diga que a maré virou a favor dos golpistas,no instante em que São Paulo ficou do lado dos militares,mas o primeiro movimento e as decisões de novo governo se deram aqui.
Este texto não e contra São Paulo,mas a favor dos dois estados e do Brasil.Ocorre que a “translação” para São Paulo da matriz cultural brasileira importará em perda das características diferenciadoras do Brasil,em nome do capitalismo,na sua feição mais predatória.
A formação nacional brasileira desaparecerá atropelada pelas exigências econômicas de progresso.
O maracanã foi erigido para o Brasil,não para a Copa do Mundo,como queria dizer a Fifa,emissária,sempre,dos interesses de hegemonia da Europa,sobre  o Brasil .
A última Copa cristalizou as condições de controle e destruição do Rio como matriz cultural,na medida em que caiu sobre nós,como um modelo profissional(dinheiro)único,que os clubes e federações aceitaram,anti-nacionalmente e por interesse econômico particularístico.
Na conformação do estádio não há mais torcidas,com suas maneiras próprias de torcer(o[meu] Fluminense não lança o pó-de-arroz]{a torcida do Grêmio não faz mais aquele movimento de arquibancada na hora do gol}).O preço(europeu)das entradas não permite que o pobre branco ou negro(ou índio[ou mestiço])vá ao estádio.
Quando o estádio do Maracanã não estava pronto,e as arenas estavam,muitos cronistas esportivos despreparados afirmaram que a violência  era porque as torcidas,sem o estádio carioca,estavam brigando nelas,por conta da impossibilidade de usar o “ maior do mundo”.
Mas isto não é verdade.A razão são os fatores a que acabei de me referir.
A sociologia define a violência como “ um esforço de integração desviado”.Os fatos de violência que têm ocorrido nas duas maiores torcidas do Rio de Janeiro(e que evitam que haja a translação para São Paulo)têm a ver (e vão continuar)com este evidente processo de excludência,que prioriza o dinheiro,frente às pessoas.O povo quer se incluir e é impedido.
Não justifico a violência,apenas a explico.Mas a explicação oferece uma oportunidade de solucioná-la ,desde que haja coragem para encarar o problema como ele é.As pessoas que no último jogo do Flamengo quiseram passar de um setor mais barato para um mais caro e que estava vazio não raciocinam como os militantes  do MST,mas deviam,pois o mecanismo de excludência é semelhante:as cadeiras vazias são um acinte ao povo ,assim como as terras improdutivas aos camponeses que estão ,sem trabalho,debaixo da ponte(no Rio inclusive[como descaso de governos de outros estados]).
Em vez de as torcidas fazerem mosaicos auto-encomiásticos ou exibir fotos de Guevara,porque não protestam contra esta guetificação,contra estes muros e barreiras?
A resposta é clara:uma imagem é mais fácil para quem não tem consciência social e o escândalo é maior quando um torcedor quebra um alambrado e invade um lugar. Conceituar através de bandeiras é mais difícil,leva mais tempo mas para aquele que é democrático,quer buscar esta consciência,tem amor à torcida,respeito aos excluídos e preocupação com a nação(sem nacionalismo)conceituar,protestar ,nos jogos,passou a ser obrigatório.
Somente assim evitaremos,num sentido contrário ao Brasil,uma tendência parecida com aquela do coliseu:a desnacionalização cultural do Brasil,muito conveniente para as tendências imperialistas que ainda estão aí,à nossa volta.
Porque o maracanã é objeto de esvaziamento há tantos ano,tanto como o Rio de Janeiro?Porque o que interessa não é o povo brasileiro ,representado pelas torcidas.O importante é o dinheiro.Não interessa diminuir o valor das entradas,que é a única solução possível,mas quem divide o bolo e quanto fica para cada um.E se não houver solução o maracanã vai embora,vai ser desmontado,como querem fazer com o Rio.