quinta-feira, 19 de abril de 2018

O abolicionismo das prisões e Lula


Quando era professor em Friburgo me converti,após assistir a uma  palestra de um desembargador,ao “ abolicionismo” das prisões.Por este conceito entende-se a supressão das prisões que foram criadas para a sociedade jogar para debaixo do tapete aquilo que é responsabilidade dela:ajudar as pessoas que nascem em condições sociais adversas.Depois desta “ jogada por debaixo do tapete” a sociedade faz da prisão ,da pura punição, um negócio e política,às vezes,e não raro,inter-relacionados.
A prisão ,em seus propósitos,foi analisada por Foucault,pelo menos na contemporaneidade,na qual a problemática dos direitos humanos é posta em evidência e contraposta ao sistema carcerário.
Setores que lucram com a guerra,lucram com as prisões.Quanto mais presos ,quanto mais bandidos, mais necessária é a segurança,mais “ necessário” é vender armas e sistemas de proteção para a “ boa sociedade” descansar em paz.
Está mais do que provado que a sociedade humana,como disse Foucault,abandonou o projeto de direitos humanos,cuja base está na solução definitiva da questão social,que continua.”O Homem  morreu” disse,uma vez,Foucault,querendo significar que o projeto de direitos humanos do século XVIII foi deixado de lado e é verdade.
Ninguém mais se importa com a questão social?Isto não é verdade,ainda há setores de esquerda que lutam,mas o projeto universal sofre abalos sísmicos profundos.
Eu,por meu lado,entendo,seguindo o projeto,que a punição não adianta nada.Não nego o direito de quem é vítima de crime de querer que o seu ofensor seja punido,mas acima de tudo a obrigação da sociedade de  reconhecer a relação entre miséria ,exclusão e crime e ,a partir daí,procurar soluções sociais,é claríssima e uma exigência incontrastável.
Por mim,corruptos,colarinhos brancos ,como Lula,não ficariam tanto tempo na prisão.Seguindo um pensamento de Evandro Lins e Silva,bastava devolver o produto do roubo e educar a pessoa(educar Lula[e os políticos]).
Nos dias atuais,sei que esta afirmação causará escândalo,porque o colarinho branco não vai para a cadeia,enquanto o faminto sim.Se a sociedade brasileira tivesse,como devia,alcançado um nível de compreensão quanto à natureza do crime ,tal proposição era (e é) a melhor.
Se fosse assim a pura entrega do produto do roubo por Lula e os outros políticos seria suficiente para pô-los no limbo,pelo menos por alguns anos, ou afastá-los de vez do cenário.
O problema é que a justiça não tem a confiança do povo,os políticos também e a população acaba justificando os seus “ pequenos” delitos por causa da falta de exemplos edificantes e o círculo vicioso continua.
Mas por mim Lula devolvia tudo e voltava para casa para ver a política pela televisão.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Antes,Aécio, ou enfim, coerência


Antes de estender o artigo anterior,não posso deixar de comentar a decisão de agora há pouco,tornando Aécio Réu numa ação para investigar a propina de dois milhões,a que eu me referi há algum tempo atrás e que considerava(como considero)base para uma condenação.Preste bem a atenção,leitor:condenação.Não costumo fazer afirmações deste tipo,por razões óbvias,mas também não me omito em dizer o que eu acho.
As circunstâncias do processo de Lula são semelhantes ao que provém das maquinações de Aécio.Se valem os mesmos procedimentos ,Aécio tem que ser condenado e se não o for,Lula tem que ser solto.
Ninguém passa recibo de corrupção.O que se ouve nas fitas do caso Aécio é claramente uma forma de diversionismo:ele pediu propina,mas diz que pediu um empréstimo.Até agora não provou a natureza deste empréstimo.Não existe isto de uma pessoa pedir um dinheiro a um “ amigo” e não haver nenhum documento,nenhuma confissão de dívida.Principalmente entre “ amigos” políticos.E se foi para pagar advogados,porque não há registros do serviço prestado?Também o advogado não exigiu publicidade na transação?
Isto tudo precisa ser esclarecido,mas a minha conclusão eu já coloco agora,em função do que tem acontecido com outros políticos.
Atacar o PT é justo,em face das mudanças ocorridas dentro deste partido,mas não me venham com esta história de que a estrutura da corrupção não está nos outros partidos,no sistema político.A responsabilidade de atacar,como nunca,a corrupção,engendrou outra,a de ser completo agora.É a máxima da literatura de Balzac:” Se vamos criticar a sociedade,vamos até ao fim”.Não há  como recuar agora e a isonomia pede para que ninguém seja poupado desta investigação geral,inclusive o Presidente da República.É a hora de o povo brasileiro entender a distinção necessária à democracia entre ela própria e o estado de direito.Não se pode usar o estado de direito como mediação da política e vice-versa.
Eu já acho muito questionável este espetáculo em torno de Lula e de Moro.Quanto mais banalizável for a reação do povo,mais igual aos políticos ele será(como de feto e constitucionalmente é).
Os políticos são só cidadãos em uma posição diferenciada da dos outros,mas a distância não é tão grande assim e muito menos na proporção que o salvacionismo de Lula desejava.
O meu lema ,mutatis mutandi,é o mesmo do Bope,” entrar para matar e não para morrer” e normalmente há que se estar muito bem fundamentado para dizer  condenação,mas não tem jeito:comprando os casos,o destino de Aécio é este:condenação.

domingo, 15 de abril de 2018

Trump,Siria,Putin e a hipocrisia geral


Até onde vai o limite do fato político e do fato histórico e daí para um fato meramente jornalístico,é uma tarefa muito difícil para o analista,mas é preciso fazê-la  afim de evitar certas ilusões ma busca de determinadas informações.
A tendência da mídia é sempre supervalorizar o que ocorre no cenário político nacional ou internacional porque isto repercute nela própria.Ainda me lembro da emoção de Eron Domingues em transmitir a renúncia de Nixon,segundo ele o ápice de sua carreira jornalística.Só que esta emoção o levou à morte dois dias depois...E o fato não é tão importante assim...
Há uma supervalorização daquilo que se considera um fato histórico,por várias razões,entre as quais  a que eu disse,mas existem outras.Na época da Guerra-Fria todo mundo achava que alguma coisa de novo e cataclísmica iria se dar e qualquer episódio gerava as reações exemplificadas acima.
Nós vivemos ainda na Guerra-Fria.No próximo artigo eu vou tratar disto.Aqui no Brasil o fantasma de 64.Internacionalmente EUA,Alemanha e Rússia protagonizam uma “ nova” luta pela hegemonia ,semelhantemente à II Guerra Mundial.
Tem-se a impressão de que o mundo jornalístico gosta deste período,porque está sempre tentando dar uma visão consentânea com ele,embora o tenhamos ,supostamente  superado.Mas o pior é que há um certo motivo objetivo,factual ,para isto.
Explico:pelo fato de estarmos ainda na guerra-fria,ou,pelo menos,sendo influenciados por alguns dos seus elementos,não quer dizer que acontecimentos políticos estejam no mesmo diapasão.
Este é o caso deste ataque de Trump e aliados na Síria.As bases do problema sírio já foram colocados por mim em outros artigos passados e eu só vou relembrar aqui:quando o povo sírio quis seguir a primavera árabe o ditador Assad,apoiado (tradicionalmente)pela Rússia,impôs uma imensa repressão que dividiu o país.O estado islâmico se aproveitou desta divisão e da perda pelo governo de parte do território para se fixar.Ponto.
Mas ao recrudescer a crise a discussão foi semelhante àquela que precedeu a invasão da antiga Iugoslávia:quem deveria invadir,por “ motivos humanitários”,era a ONU ou os Estados Unidos?Nos anos 90,no governo Clinton,ninguém teve dificuldade em responder a esta pergunta,porque os Estados Unidos o fizeram sem problemas.
Agora,outra pergunta se põe igual,como se fez no inicio desta crise:a ONU ou os Estados Unidos.Ninguém quis se imiscuir no problema,porque não havia vantagens políticas,ou seja,hegemonia dos Estados Unidos.
E como efeito desta omissão dos Estados Unidos de Obama(antes de tudo um americano)e da ONU,as coisas estão como estão.
Mas porquê Trump invadiu?Porque agora o problema da hegemonia nacional americana está posta por seu governo nacionalista e exclusivista.Para confrontara a Rússia e marcar um papel mais autoritário do país,Trump o faz.
A França e o Reino Unido estão enfraquecidos diante da Alemanha e da Rússia e por isso apóiam Trump.
E porquê a Rússia não reage?Porque  o essencial para o governo de Putin,bem como de Teresa May ,Macron e o próprio Trump,é manter a escalada armamentista da guerra,porque os cartéis da guerra,os vendedores de armas são os sustentadores de Putin,bem como do republicanismo de Trump.
Com a eleição de Trump,acabou a Comunidade Européia e voltou o “ concerto hegemônico das nações”.Tudo está no seu lugar,” não”há motivo de escândalo.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Marina


Anos atrás eu já tinha falado sobre o significado da possível(então)candidatura de Marina.E tinha fixado na questão nacional.Ela é a candidata,pelo menos até agora,mais habilitada a representar a nação,não esta ou aquela facção.
Contribui para isto o fato de ela ter relações com a religião,mas isto é uma faca de dois gumes( e não legumes):se por uma lado ela tem acesso à média ética da sociedade,por outro ela se confina,o que deve,neste caso evitar,com uma postura republicana e laica(a enfatizar).
Há muitos anos ouvi dizerem(talvez inimigos),que Marina é entreguista,não tendo concepção sobre a Amazônia e os “ Bens nacionais”.Ela defende,pó sua formação conservadora,casamento entre sexos diferentes,o que não quer dizer nada,porque isto não a impede de aceitar as mudanças do tempo(pelo menos ela não tem demonstrado agir contra isto).
Artigos pela internet afirmam que ela defende um projeto social-(-ista)liberal de direita,fato inédito no Brasil,porque isto nunca  foi nada.Seria um socialismo de direita.Mas estas afirmações  e acusações precisam ser contestadas  na exposição do programa recém lançado de sua candidatura.
Estou mais preocupado com a superação dos extremismos,com a nação,mas fico de olho nas possibilidades eventuais de isto se transformar em algo  igual ao que ocorre atualmente,à direita e à esquerda.
Até agora não tenho verificado verdade nestes ataques a ela não.Mas,botar mão no fogo por político...Continuo pesquisando e espero esclarecimentos ao ver o programa.
A candidatura de Joaquim Barbosa é também de se considerar.Contudo ele me parece inexperiente.Um político ,para ser Presidente da República,não tem que ter só “compostura”,como preconizou FHC,quanto a Lula,mas ser muito provado,durante décadas(talvez)na relação de negociação com os partidos e políticos.Mesmo porque o executivo não é uma instância ditatorial,mas de mediação com outros poderes.Marina se enquadra mais neste meu critério.
De qualquer forma,penso que é entre estes dois que está a “ Candidatura nacional”,para reconciliar o Brasil.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Padilha com Bial


No dia de ontem,10 de abril, o cineasta de “ ônibus 174” e “Tropa de Elite I e II” ,Padilha,foi entrevistado por Pedro Bial em seu programa.Não sei se o que eu digo aqui tem tido alguma influência em alguém,mas não importa.O fato é que a consciência de uma nova esquerda preocupada com novos valores,diferentes daquela,clássica,influenciada pelo marxismo,aparece.
O estudo,através inclusive da arte,da realidade,está criando novas oportunidades de compreensão do mundo,sem distorções ideológicas.O acesso ao mundo real tem aberto caminho por entre os modelos.O mundo real possível da política é a nação.
Na conversa que Padilha teve com Bial,esta idéia pareceu ter repercussão nos interlocutores.Tanto a direita quanto a esquerda são vistas como extremismos cujo crivo exclusivista e subjetivista querem se impor  e fazer uma ditadura.
Pela primeira vez vejo alguém de esquerda ser contra o conceito divisivo da luta de classes,reconhecendo a sua natureza intrinsecamente ditatorial.Esta besteira que é repetida aí na internet dando conta de que é preciso ter lado tem que ser contestada.Tem muita gente,inclusive que não se enquadra na esquerda ou na direita, que reproduz esta falsa idéia.
Se eu,por exemplo,sou integrante da classe média,porque,no âmbito do Brasil,tenho que olhar só o meu lado?Porque não posso considerar as outras classes?Quer dizer que o melhor(seguindo Marx)para a sociedade é defender somente o seu lado?Devo me sentir(seguindo Marx)pior do que a classe realmente produtiva?Ou menos importante?Ou a solução da esquerda é exterminar(como não raro)aquele que não está do seu lado?
Estas perguntas estão pululando na minha cabeça nestes últimos dias e anos.Mas o mais importante é que outras pessoas estão indo pelo mesmo caminho crítico quanto a estas visões ultrapassadas do marxismo ortodoxo(o marxismo de Marx).Penso que estamos no limiar de compreender o que deve ser a nova concepção da esquerda,aliada do problema nacional e entendendo que as classes não existem sozinhas e que tal afirmação não contraria de forma alguma a dialética,ainda que como produto da consciência.Oportunisticamente partes da esquerda,reunidas no PSOL de Freixo,por exemplo,reconhecem o papel da sociologia estudando superficialmente com má vontade “ As Regras do Método Sociológico” de Durkheim,só para dar a impressão de reconhecer o papel da sociologia,mas no fundo a submetendo ao controle do marxismo,tido como a ciência .
É só um truque.A estrutura ultrapassada está lá,numa situação pior,porque ocultada.Se a classe “ produtiva” se compõe com a burguesia(PT)então os “ novos” atores da transformação revolucionária são a mulher e o negro.De dez em dez anos diante do fracasso de cada um dos grupos de “ atores” escolhidos,outros o são  pelos motivos mais estapafúrdios e sem fundamentos sociológicos.
O único senão da fala de Padilha  foi a proposta de oferecer um “ Macron” para o Brasil,um presidente “ nacional”(não de classe).A esquerda não precisa abandonar o internacionalismo em favor do “ nacional”,mas articulá-los de forma nova.Qual é esta forma?A inclusão da nação como parte do pensamento de esquerda.Eu já tratei disto aí em outros artigos.A esquerda sempre considerou a nação como um conceito e uma realidade burguesas,mas ela pode ser incorporada ao pensamento de esquerda,que deve sempre atentar,permanentemente, para as mudanças sociais,que são muitas e que tornaram o mundo atual totalmente diferente daquele em que Marx viveu.