sábado, 26 de setembro de 2020

Esclarecimentos (de novo) sobre a dicotomia direita/esquerda

 

Minha posição

Como não adianta eu explicar,explicar e explicar que ninguém entende ou deturpa o que eu falo,não me resta senão repetir para não ser mal entendido ou interpretado.

De forma alguma eu me coloquei como alguém além da direita ou da esquerda.Sou um homem de esquerda ,preocupado com as mesmas coisas com que me preocupava quando tinha a idade da foto constante do artigo anterior:a miséria,a injustiça,etc,etc.

Contudo eu me nomear ,agora,como centrista,centrado na minha inserção como cidadão/trabalhador de meu país,não significa o que a maioria pensa:trabalhista,nacional socialista,direita tradicionalista.

O nível de ignorância da esquerda a induz a dizer coisas inacreditáveis.Mas há pessoas de direita que seguem pelo mesmo “ sendero luminoso”.

O meu ponto de partida é a II Internacional,onde o conceito de nação ,como unidade cultural,aparece dentro do marxismo.Antes que algum beócio branco ou vermelho venha gritar contra isto,quero dizer que não é porque eu parto da II Internacional que apóio incondicionalmente (com a mão no coração)o que ela fez.Não acho que ela acertou tudo,que é o farol da humanidade,nada disso.Há muito tempo deixei de ser criança.

Alguns valores e idéias não se identificam com grupos ou pessoas,mas fazem parte de uma elaboração de época,de pessoas sim,que não têm nada a ver com o que outros fizeram de errado.

A II Internacional acabou com a ascensão do nazismo,que pelo que eu saiba reprimiu igualmente a ela e ao comunismo da terceira internacional.Aliás foi por culpa desta última ,como já expliquei,que o nazismo pode se instalar...

As pessoas,em todo lugar,rádio(isabele),têm que ler os meus artigos ou livros ,porque senão não vão entender o que eu digo,a menos que estejam usando estes meus conceitos para deturpá-los intencionalmente.

Ser centrista não é não ser nacionalista,pelo contrário,é incluir a nação,o fenômeno nacional na luta da esquerda.De certa maneira é ir um pouco além de Gramsci,mas é ser de esquerda.

Muita gente de esquerda vai dizer que ela já incluiu a nação,mas vire e mexe,quando ela perde o contato com a sociedade,se volta para o internacionalismo,lembrando que leu em orelha de livro de Karl Marx,que “ o operário não tem pátria”,o que vimos no governo Dilma.

Além do mais o esquema básico do radical(beócio)é aquele do Lênin:desenvolver a revolução burguesa num país,para depois passar por cima deste revolução e espraiá-la por todo mundo .A História já provou que este açodamento só reverte,só retrocede.

Uma revolução burguesa para se tornar firme e criar as condições do socialismo e comunismo,leva tempo.Este lapso é que é o problema.

O que define a esquerda é ela se preocupar com a questão social.EU NUNCA VI A DIREITA TER ESTA PREOCUPAÇÃO.Em alguns momentos a direita até tentou trazer certos itens do programa de esquerda para a sua politica.Lembro-me do governo de Maluf em São Paulo em 1982,cujo secretariado continha elementos da esquerda comunista,como Rodolfo Konder.Nelson Rodrigues,talvez por influência das conversas que teve com Arnaldo Jabor ou com João Saldanha,opinou sobre certos fatos ,dentro de um prisma de esquerda.

Mas é só.A direita se divide basicamente em uma artística ,especificamente literária, e uma ativista,politica.A direita literária e artística é importante sim.Ela demonstrou o óbvio:que é mentira das revoluções e dos movimentos de esquerda que todos se benficiam necessariamente de suas ações.

A direita é individualista,no sentido de defender o integrismo individual diante dos achaques da politica,das revoluções e discursos demagógicos.

A esquerda se compromete com o problema social.Daí para a frente tudo é discutível,mas ela sobrevive porque é a única que se interessa.

Tem um intelectual brasileiro “ novo” aí,Pondé,que diz que a esquerda é uma “ jogada de marketing”.Absolutamente.

Por tabela ,por considerar a questão social,a esquerda inclui outros movimentos,como o lgbtqI,o movimento negro,o feminismo,mas a prioridade,para a qual a esquerda já não está nem aí,é a questão social(condições materiais de existência).

Este centrismo anódino que muita gente defende aí,apoiando Bolsonaro,tem a mesma função que o neutralismo nos EUA ,antes da II Guerra:favorece a direita,o nazismo.

Eu sou centrista por incluir a nação,mas não sou nacionalista.Incorporo algo do trabalhismo,mas não sou trabalhista.Sou social-democrata,mas penso numa nova social democracia,diferente daquela que nasceu na época de Marx,sem perder este elemento decisivo da questão social.



Quando eu era Stalinista


foto antiga,quando eu era stalinista



A foto acima remonta ao tempo em que ainda era stalinista,por influência de meu pai.Nestes tempos bicudos atuais em que se volta no Brasil a falar de Stalin esta foto é importantíssima!!!!

Porque insisto tanto em Stálin?Em primeiro lugar eu não consigo entender porque uma figura histórica não pode ser abordada.Fala-se tanto em Hitler,porque não Stálin?Porque diante dele as pessoas dizem que deve haver algum motivo oculto?Claro que eu sei a resposta:isto é para dizer que o perigo vermelho voltou.

É um truquezinho da direita vender a discussão sobre a história do comunismo e dentro dela a de Stalin como um espantalho do “ espectro do comunismo”.

Mas estas figuras e este movimento fazem parte da história e devem continuar sendo analisados.Não tem porque deixá-los escondidos.Para a humanidade que quer prosseguir numa luta, esconder as verdades é muito pior,mas eu escrevo não só por razões pessoais,pelas razões supraditas que orientam a minha atividade de pesquisador,mas para evitar o também supradito 171 da direita ,que joga este terror na média ética cristã do Brasil para se locupletar.


 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Os comunistas e o século XXI

 

Eu não resisto.Tinha pensando em não mais responder a coisas que eu vejo aí nas redes,mas não tem jeito,tenho que comentar certas “ coisas”.

Na Folha de São Paulo apareceu no domingo, dia 20 de Setembro, uma matéria sobre os “ novos” comunistas.Sobre alguns eu comentei no artigo anterior e eles aparecem de novo.

Mas o que mais me estarrece é pensar que um jovem que se denomina “ marxista-leninista”,pense que ele é o marxista do século XXI!!!Seria cômico se não fosse trágico.Ás vezes eu me pergunto se estas reportagens não são feitas de propósito para causar espécie e polêmica,intencionalmente.E se eu não estou sendo usado!

Eu concluo com Jandhira Fegalli,presente na reportagem, que ninguém até hoje compreendeu o verdadeiro sentido do comunismo:ela inclusive.

O que aconteceu na URSS e com o stalinismo que ela defende até hoje(Albânia ,João Amazonas)não tem nada a ver com a ideia histórica recorrente.É um regime socialista nacional inevitavelmente totalitário.

O marxismo-leninismo não é ,como disse o responsável pela matéria ,criação de Lênin,mas de Stalin,num livro pequeno,” Princípios do Leninismo”,que não foi escrito por ele,mas de uma série de escribas que ele selecionava.

Anatoly Ribakov descreveu esta prática de Stalin em seu romance “35 e outros anos”,lançado na época da glasnost e perestroika.Stalin fazia como o escritor francês do século XIX,Eugene Sue e como,mutatis mutandi,o Papa:colocava 10 mesas com escritores profissionais e ia de mesa e mesa supervisionando e acrescentando conceitos e ideias dele próprio.

Só um texto sobre nacionalidades tem uma verdadeira autoria atribuível a Stalin.

Nos “ Princípios do Leninismo”Stalin propõe elevar a teoria do “ elo mais fraco” de Lênin a um status de acréscimo ao pensamento de Marx,mas como Lênin mostrou,no “ Estado e a Revolução”,as características do estado soviético,extremamente inflado,contradiziam as assertivas do marxismo.

Não que Lênin tivesse dito isto,pois ele não conheceu o marxismo-leninismo.Apenas mostrou algo essencial nos textos de Marx e Engels que punha em xeque os rumos da URSS.Lênin certamente pretendia que sua teoria acrescentasse algo à de Marx,mas não chegou a elaborar nem incipientemente esta ideia,tida erradamente como “ ciência”,mas que nem teoria é,mas uma doutrina justificadora do stalinismo.

Já cansei de ver ,inclusive na Tv escola,pessoas ditas profissionais,atribuírem a ideia comunista à Marx apenas,mas a ideia comunista é antiquíssima,evangélica ,jesuítica,que passou para o iluminismo alemão e chegou até Marx que tentou dar-lhe ,a partir da dialética, um significado científico,sem sucesso.



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Nada de ruptura juridica

 

Mais análises sobre a luta de classes

Volto para discutir novamente um conceito que tenho criticado sobejamente:o de luta de classes,um dogma renitente na esquerda.

Quando eu era um militante radical nos inicios dos anos 80 do século passado tinha um professor de sociologia muito rigoroso Nelson Maciel Pinheiro Filho,que me ajudou muito.Uma vez eu repeti os conceitos sobre luta de classes do marxismo e ele ,logo,aduziu:mas as classes não existem por si mesmas,elas se relacionam e só existem neste relacionamento.

O paradigma da luta de classes se “ consolidou” antes do aparecimento da sociologia que provou as afirmações acima e afinal este relacionamento contém em si uma dialética também.

Como mostra Popper,a origem do conceito únivoco,monistico, de luta de classes,deriva das concepções de Aristóteles que serviram de base para a análise da realidade social e natural.

Nesta perspectiva só se viam os conflitos entre os diversos setores da sociedade como ocasião em que mudanças ocorriam,mas a tradição experimental ,que cresce desde a ciência moderna e que se reflete mais no pensamento empirico anglo- saxônico,começou a revelar aquilo que a sociologia tornaria uma “ lei” cientifica:que não só os processos de ruptura tèm lugar,mas também os de colaboração e integração.

Este tipo de dúvida influenciou até a teoria da evolução de Darwin Wallace:o biólogo só se fixou na luta pela sobrevivência como motor das modificações da seleção natural,mas ,e foi este professor de sociologia que me indicou,na natureza há também processos de seleção a partir de integrações e “ colaborações “ entre os seres vivos.Num livro,à época,muito importante,” Ensaios de Sociologia”,de Octavio Ianni,importantíssimo sociólogo,até hoje,há um artigo em que se faz referência à visão divergente do anarquista Piotr Kropotkin,quanto à seleção natural,observando que em muitos casos a integração entre os seres vivos produz mudança também.O exemplo dado lá é o do peixe-piloto com o tubarão que favorece a sobrevivência do primeiro.Mas há outros exemplos como o das formigas,cupins e abelhas que se protegem coletivamente.

De modo que a dialética é não só rupturista,mas integrativa,como é de sua natureza óbvia,sendo o paradigma da luta de classes,unilateral e falsa.

Neste sentido, ao defender uma politica de esquerda,no interior de uma nação e de uma cidadania,baseá-la só numa classe e nos direitos desta classe é um convite à destruição do meio e de seus liames normativos,psicológicos e políticos mesmo.Assim se fazem as guerras civis e os cataclismos que geram os nazismos da vida.

Se é certo que há que se priorizar aquele que está numa situação pior,por incidência maior da exploração,não há justificativa para uma ruptura institucional e jurídica.

É a diferença entre Marx e Kant.Enquanto Marx funda o progresso numa única classe,que precisa superar as outras,Kant fundamenta uma hierarquia de valores ,em que os mais desvalidos são abordados prioritamente,mas sem descuidar das necessidades e direitos dos outros.

O desconhecimento destas verdades leva às maiores distorções que conhecemos.



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Domenico Losurdo e Caetano Veloso

 

Eu já tinha tomado conhecimento,há três anos,da figura de Domenico Losurdo.O que representa este autor,no periodo pós-socialismo real,pós queda do Muro e da URSS?Uma tentativa dos remanescentes socialistas e comunistas da luta que se acabara supostamente, de retomá-la,a partir de seus fundamentos mesmos,mas “reconhecendo” em termos,os erros.

É a continuidade daquele reiterado processo de autocrítica,que relativizava os erros e mantinha tudo do jeito que era antes:fadado ao fracasso.

Mas de qualquer forma algumas reflexões de Losurdo têm uma importância,porque por elas se pode discutir o futuro do movimento,pelo menos daquele que quer andar para a frente,no caminho da vida e não ficar preso ao passado.

Algus radicais,como Jonas Manoel,dirão que Shakespeare é que está certo ,” o passado é o prólogo”.Há que voltar ao passado para avançar,mas esta volta(re-volta)é para reformular o passado e é isto que se está procurando fazer.Mas aí eu retorno:ao voltar ao passado,numa autocrítica,não tem sentido permanecer no mesmo lugar ou apenas relativizá-la,fazendo-a num plano superficial,como faziam Prestes e Mao Tsé Tung.

Para Prestes se uma linha não dava certo,se a prática não se efetivava,bastava apenas fazer outra.E testar.Nunca os fundamentos estavam errados,pois eram “ científicos”.Mao tem uma frase famosa,que eu costumava ver nos folhetos das otganizações radicais da ufrj ,dando conta de que era preciso cair e levantar infinitamente até conseguir o objetivo,no que é uma conceituação pura e simples do que Prestes falava e que só serve como justificativa ideológica do uso da força,que passa por cima de tudo,arrasa tudo e constrói a utopia(raciocinio cabivel no nazismo).Ambos(entre outros)são relativizadores morais,porque nunca questionam os fundamentos.Erros em profusão revelam ou a incapacidade do agente de fazer ou falta de fundamento.E previamente qualquer teoria deve levar em conta que erros demais podem ser danosos para o movimento,para ele próprio e mais severamente para a sociedade.As precipitações da revolução russa e do maoismo levaram à morte,milhões ,porque o passo inicial foi mal fundamentado.Tostoi advertira em “ Guerra e Paz” do perigo que é ter uma iniciativa politica mal engendrada.

O fracasso do socialismo real jogou muita gente no marasmo pensativo sobre o passado e a pergunta inevitável espoucou na cabeça de cada um;”o que deu errado?”.Mas outras também:”qual foi a minha culpa?”,” tenho relação com os crimes de stálin?”.

São perguntas que demandam artigos mais alentados do que este,mas o que permeia todas elas é a exigência existencial de sentido após a sua perda,já que o militante abnegado empenha a sua vida no movimento.Caiu o movimento,acabou a vida.Foi o que levou aquele general soviético em 1989 a se suicidar,deixando um bilhete;” tudo pelo que eu vivi está desmoronando”.

Mas a maioria respira fundo e tenta ir em frente.Foi o caso de Domenico Losurdo.Mas cada pessoa reage na medida em que cada um dos elementos existenciais do problema ocupa espaço e prioridade na sua consciência.Não havendo como analisar a vida de cada um ,só se pode julgar as conclusões dos debatedores pelo que eles apresentam publicamente.

No caso de Losurdo fica claro para mim que ele está na senda de Prestes e Mao,não atacando os fundamentos.Os fundamentos da revolução russa não estão em Marx,mas em Lênin,com a “teoria do elo mais fraco”.Ponto.

Da insistência de Lênin em ligar-se a Marx ,por intermédio de “ O Estado e a Revolução” gerou-se um processo politico que degringolou até ao advento de Stálin e seus crimes.Relativizar tudo isto é cair na situação atual:reformular alguns conceitos e por cabriolés mentais e teóricos conservar tudo no lugar.

Para mim isto não tem fundamento,mas como eu disse, tentando adaptar o marxismo aos novos tempos,nós temos como relacioná-lo às questões novas e com o futuro da utopia.Se der.

Losurdo não tem razão em justificar os crimes do passado que não podem retornar nesta busca do futuro.Como são muito chinfrins as suas colocações o jeito é fazer o de sempre :atacar o outro lado.

Então Losurdo,Jonas Manoel e José Paulo Netto enveredam por esforços ingentes para realizar o que já nos anos pós-68 Althusser quisera:”Um dia o que aconteceu no Stalinismo será colocado no lugar devido”.Uma frase tipica de Prestes e Mao.

José Paulo Netto,o último da tríade renovadora do marxismo dos anos sessenta e setenta,juntamente com Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho,usa argumento idêntico(Manoel só repete)ao de Lulkacs:não é como a burguesia diz ,uma pessoa só malévola,mas um sistema.Sim mas e daí?Este sistema não foi implantado por Lênin?Sem a identificação monstruosa Estado,Partido e Sociedade(contra esta última)teria havido Stálin?O que é Stalinismo sem moralismos?É ser moralista defender que os crimes do socialismo real são como os de qualquer ditadura?Que devem ser reparados?

Mas voltando mais acima:atacar a direita é muito mais eficaz do que tentar salvar o titio Stalin,porque ninguém vai aceitar esta operação de salvamento,como sempre.Então o foco é o liberalismo,que tanto impressionou Caetano Veloso e o obrigou a sair do liberalismo,numa autocritica(outra)típica de ...Prestes.De Mao eu não digo.Caetano nunca foi ligado ao chinês.

Contudo o que salvou em grande parte o marxismo do século XX de uma desonra total foi o seu diálogo com a religião e os liberais,a partir de Gramsci,Labriola,Croce,Carlos Nelson,Leandro Konder,José Paulo,Merquior,Raymond Aron.

E o marxismo escapou porque aceitou a democracia liberal,saindo da influência nefasta de dois livros de Lênin,”A doença infantil do esquerdismo no comunismo” e “ O Renegado Kautsky e a Revolução de Outubro”,nos quais o chefe da revolução russa a relativiza(olha aí a palavra),instrumentalizando-a.Não se tratava mais de usar a democracia para virar a mesa,mas ampliá-la,ampliar a democracia liberal ,tornando-a válida para todos,no que seria o (re)-inicio do socialismo e ,quiçá,do ...comunismo.

José Merquior ensinava o liberalismo com uma distinção tomada de Aron:há uma diferença entre liberal e liberista ou liberismo .

O mercado livre ,a sua pura e simples defesa, caracteriza o liberismo,mas o liberalismo são as conquistas constitucionais modernas,o estado de direito moderno,que os comunistas usam para obter reparações pelos crimes das ditaduras...

O mercado ,assim como as religiões(por incrivel que pareça),são instâncias republicanas,porque,em princípio ,qualquer um pode participar delas,sem nenhuma condição prévia.Walter Benjamin falou sobre esta semelhança da religião com o mercado.Merquior argumentava,junto com Aron ,que não pode haver democracia sem mercado,sem comércio e realmente ,na história,os regimes mais progressistas do passado são baseados no comércio(desde os fenicios).

Contudo ,é lógico que os movimentos mudam ao longo do tempo.O liberal constitucionalista de hoje não é igual a um liberal do século XVII,como Locke.

Perceba bem o leitor ,eu tenho me esfalfado de explicar o procedimento científico,rigoroso ,de abordar a história:não é porque se defende o princípio da propriedade exposto por Locke,que se deve amar e seguir esta pessoa.Lógico que todos sabemos que Locke era um escravocrata,como todos os próceres do iluminismo eram eurocêntricos e racistas,mas a questão não é pessoal,é rigorosa,transcendente ao problema individual,embora este possa ser analisado de maneira distintiva,num outro plano.

A plataforma de direitos humanos atual ,tão defendida pela esquerda radical começou sim nos “ Direitos do Homem e do Cidadão”da Revolução Francesa,como projeto da burguesia capitalista ascendente,endereçado a todo homem.Ainda que não seja possível realizá-lo nos seus termos ,a sua legitimidade humanitária é inconteste.O capitalismo,pelo liberalismo,implica em evolução humana sim.Ainda que no inicio esta proposta histórica possuisse limitações,pode e deve ser integrada aos setores excluidos.

Domenico Losurdo dá vazão à dificuldade de aceitar a derrota ,porque ela como eu disse,fere a existência do militante,que se tivesse desde o inicio separado da atividade politica,não sofreria tanto,mas talvez,bem antes,se o fizesse,já tivesse saído do movimento e de suas contradições e...crimes.

Caetano Veloso já foi atacado pelo próprio Merquior que o chamou de “ intelectual de miolo mole” .Mas é claro que não é isto.Caetano é gênio da raça ,mas incide sobre ele problema simile ao que atingiu John Lennon:tanta é sua influência como artista que reflete sobre seu tempo e sobre seu país,que ele não resiste a ter influência social e politica,mas são dois campos diversos e todo militante que sonha com a utopia quer restaurar aquele clima de luta e camaradagem confiante que todos nós viviamos nas décadas anteriores,principalmente com este governo desassizado que está aí,mas são coisas diversas.

Há toda uma história de discussões,auto-reforma do socialismo e comunismo,diálogo com outras correntes ,que tem que ser conhecida anets de qualquer opinião.

Não resta dúvida de que o mercado,desde os fenicios,não anda sozinho,não é a solução da humanidade ,e isto levou 5000 anos para se compreender ,quando da crise de 1929.Mas a critica marxista da propriedade é,hoje,muito discutível.Se Caetano vivesse na URSS ele conservaria muito justamente aquilo que ganhou,muito justamente,na sua carreira genial?Ou em Cuba?Quem garante este seu direito?Não é o liberalismo?Não é o constitucionalismo moderno?

Infelizmente no afã de ajudar a esquerda ,atrapalhou,porque não há coisa pior para o Brasil de hoje do que ressuscitar stalin e o socialismo real.Isto é virar as costas à vida e à continuidade do movimento e é uma atitude egoista e egocentrica,infantil,de não reconhecer os erros e insistir neles,jogando água no moinho da direita que usará este revivescência como espantalho.Porque eu estou envolvido e sou mais importante do que a vida eu mantenho a minha convicção que já foi sobejamente derrotada e que se dane o movimento.Sem a reformulação dos fundamentos não há re-volta ao passado para avançar.

O caminho,no meu modo de entender, é retomar de onde parou a III internacional,salvar os principios social-democráticos da II e renová-los para fazer a esquerda vencer no primeiro mundo.A vitória de Obama criou a chance de fixar o socialismo nos Estados Unidos e daí recuperar a sua posição no primeiro mundo.Se ele permanecer a tendência se manifestará no planeta todo.



segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Eu não gosto de “ismos”

 

A principal discipula de Gyorgy Luckacs,Agnes Heller,que saiu da Hungria para morar na Austrália,esteve nos anos 90 aqui no Brasil para algumas palestras sobre as suas concepções,notadamente sobre a História.

Numa entrevista ela expôs partes de seu pensamento,mas um destes temas me chamou muito a atenção na ocasião:ela disse a mesma coisa que está escrito no titulo deste artigo “ eu não gosto de 'ismos'”.Digo eu,imperialismo,fascismo,comunismo,socialismo e outros ismos.

Agnes Heller ,como filósofa(num sentido bem amplo desta denominação),segue os passos de Nietzsche.Todas as abstrações,os nomes ,as classificações, pretendem ,sem sucesso, expressar o real mesmo,o que a coisa é,o que as coletividades são.O próprio termo “ coletividade” denota algo que não existe: indivíduos concretos vivos.O real é este,não o termo genérico,abstrato.

Tal raciocinio vale para todos os “ismos”.Sem seguir o radicalismo de Nietzsche,Heller pondera que potencialmente estes ismos acabam por reprimir ,pressionar estas “ perspectivas individuais” e diluí-las ou manipulá-las.Sem determinados limites bem compreendidos a tendência é esta mesmo.

As minhas críticas ao comunismo,como ele se apresentou no século XX,ao capitalismo(tem radical de esquerda que acha que eu não faço),ao imperialismo,se baseia entre outras coisas ,nesta constatação.E todo mundo usa um truque que todo paranóico de direita ou de esquerda gosta para dizer que eu confronto estes dois lados ,direita e esquerda,Hitler e Stalin para defender o capitalismo e fechar os olhos ao imperialismo,mas eu deploro todos os ismos.

Cada proposta eu analiso para entender em que medida os seus limites compreendidos são capazes de evitar as mazelas supracitadas.

Mas o fato é que cada uma delas deve ser vista dentro deste necessário equilibrio entre o homem real,individual e os movimentos,as coletividades,as abstrações e ideias que visam a modelar o seu comportamento.



sábado, 12 de setembro de 2020

O Brasil do século XXI será a China do ópio no século XIX?

 

Eu esqueci de falar no artigo sobre a China,da questão da Bolivia.Há uma articulação evidente entre o problema da Amazônia e o da Bolivia.

Como nós vimos no filme de 007 Operação Skyfall,foi descoberto um lençol de água lá,que aguça há décadas o desejo das nações hegemônicas.Nestes anos de governo Evo Morales,de quem nunca gostei por criar ruídos com o Brasil,o povo boliviano lutou muito para evitar que este lençol caísse(até agora)nas mãos das grandes potências que queriam e querem cobrar até pela água da bica.

Mesmo não gostando do continuísmo de Evo Morales esta sua repentina saída se encaixa neste processo todo de cerco da Amazônia e do Brasil(e da Bolivia).Não é só o nosso país, é a Bolivia e as riquezas da América Latina ,porque o problema não é só dos recursos da Amazônia: é a da água.

Eu não vou tratar disto agora ,porque estou preparando um artigo sobre isto,que ainda não está pronto,mas desde o século XIX,com o episódio da tentativa de dominio do México pela Áustria,com apoio da França,que a América Latina vem sendo objeto de cobiça,mas eu vou discutir isto depois.

Nas universidades brasileiras se discute muito ,há muitos anos este avanço da China e suas consequencias geopoliticas,avanço da Rússia e dos EUA.E muitas e muitas vezes eu citei a teoria do rimland,pela qual o eixo do cerco aos Estados Unidos se dá unindo o Atlântico sul,África e Brasil.Assim todos os mares são dominados e fica mais dificil para os Estados Unidos se espraiarem pelo mundo,porque já não pode mover-se por todo o globo.

Após a 1a Guerra,os EUA substituíram o imperialismo britânico com as mesmas armas :a marinha,que permite ir a todo o lugar e tomar atitudes militares a qualquer lugar e a qualquer momento(por isto a formação dos marines).O fecho no atlântico sul dificultaria.

Neste sentido a penetração na triplice fronteira ,Brasil/Argentina/Paraguai soa como uma antecipação possível disto aí.A Al Qaeda,de Osama já fizera incursões por aqui(citando a estratégia de Guevara) e o objetivo geopolitico é o mesmo de fazer este fecho.

O objetivo de Bolsonaro ,neste alinhamento carnal com os EUA, parece-me uma tentativa de se opor a isto,mas dentro deste alinhamento,Bolsonaro teve que confrontar a Venezuela,para o seu mentor e isto continua sendo,eu disse há muito tempo,um erro criminoso de geopolitica porque põe a Rússia no balaio e favorece em termos os irmãos do norte,que se apresentam como os amigos salvadores do Brasil.Mas o que temo ,no final,é o que todas estas potências queiram fazer o que intentaram com a China há dois séculos,quase três.

Houve duas guerras do ópio na China(analisadas inclusive por Marx).Elas foram causadas pelo uso que as potências da época(menos os Estados Unidos )fizeram da droga para entorpecer o povo chinês e dominá-lo.

No final deste século ,já com a presença de um EUA já em franco processo de desenvolvimento industrial,bem como do Japão da Era Meiji,um novo esforço hegemônico foi feito sobre este país milenar.A famosa imperatriz ang li conseguiu rechaçar a todos,mas a China se isolou e entrou num crise interna que redundou posteriormente na proclamação da república,fato positivo que não evitou que a China permanecesse em conflito interno e externo até a ascensão de Mao Tsé Tung.

O Brasil,como tenho insistido propositalmente,não é ainda um país unificado(nem a Bolivia):existe um separatismo de direita forte no sul,que pode estar articulado com interesses oriundos da ditadura.Eu vou citar de novo um trecho do livro importantíssimo “Os anos de Chumbo”,em que os principais militares da ditadura prestam depoimentos reveladores,um dos quais o do Brigadeiro João Paulo Burnier ,acusado de asfixiar Stuart Angel,que cita uma proposta dos Estados Unidos de levar a Amazônia em troca de um plano Marshal para enriquecer de vez o sudeste brasileiro,o nordeste e o centroeste(sob hegemonia deles).Num contexto eventual destes será fácil o sul se separar.

Tem muita gente que dirá que estas minhas elucubrações são delírio,mas é preciso ver que o Kaiser Guilherne,na primeira guerra instou os alemães a tomarem o poder no sul do Brasil e se anexar à Alemanha.Os nazistas seguiram este princípio veladamente.No famoso filme “ O Triunfo da Vontade”,quando as formações de trabalhadores ,meio hipnotizadas ,respondem de onde vêm,um grupo diz que vem de além-mar e os grupos radicais neonazistas permitidos tinham este objetivo,como demonstra o historiador Stanley Hilton no livro “ A guerra secreta de Hitler no Brasil”.

O terceiro exército ,lotado no Rio Grande do Sul não foi com a FEB,porque se sabia de uma aliança velada entre a Argentina e a Alemanha nazista.

Diversas vezes na História tais hipóteses são vistas como especulações delirantes ,mas isto foi o que disseram a Lênin em 1916 um mês antes da revolução de fevereiro...Seguro morreu de velho.

O Brasil está ficando cercado.Se no passado a China ficou cercada por causa de seu território ,de seu ferro da Manchúria(essencial para a indústria...dos outros),o Brasil(e a Bolivia)estão ficando do mesmo jeito,por causa de seus recursos naturais ,a biomassa e posição geopolitica.

Origens definição e utilidade da filosofia completo

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A danação das vanguardas de esquerda

 

Esquerda para mim é fundamentalmente razão emancipatória.Tirei este conceito de Jurgen Habermas.Não se trata de fazer caridade ou assistencialismo.

No passado acreditando ainda na revolução ,toda a caridade era vista por mim como atraso do desenlace final utópico.Hoje eu incluo a ajuda do estado como parte do processo,não todo ele.

A esquerda no mundo todo e especialmente no Brasil,depois da queda do socialismo real,empacou neste tipo de assistencialismo que já é prática de um monte de lbv por aí,um monte de espertos por aí,laicos ou religiosos.

E o cúmulo do absurdo é que usam o mesmo expediente canalha de chantagear:o politico faz o que faz porque é seu DEVER .Ele não tem o direito de jogar sobre seus eleitores o fato de terem feito o que o povo precisa.

Lembro-me muito bem de que um destes “ caridosos” aí,atingidos pela justiça,usou os seus seguidores como reféns,alegando que se ele fosse muito justamente preso e a sua instituição desbaratada,ficariam desamparados.É a simbiose da politica com o direito,favorecendo a primeira;é a politica se sobrepondo à verdade.

Mas há um outro problema:a esquerda,agindo assim manipulatoriamente,como a direita,constrói lideranças,às custas do pobre,da miséria.Ao invés de criar condições para emancipar de vez catadores de papel;moradores de rua ,vendedores de balas,constróem carreiras politicas que não emancipam estas pessoas e favorecem estes políticos,que ficam reproduzindo poder indefinidamente,como a direita faz.

Abaixo o gigolô de pobre.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

domingo, 6 de setembro de 2020

Amazônia:tudo o que está ruim pode piorar

 

Tenho falado diuturnamente na Amazônia.E sempre joguei para a frente os perigos sobre ela.Mas me enganei:o perigo está às portas com esta intenção de levar o problema das queimadas para o Tribunal de Haia.

O Tribunal de Haia pensa simplesmente em considerar este problema como um ato doloso contra a humanidade e julgá-lo no Tribunal Penal,como crime.

Ora,eu vou continuar agindo e pensando da mesma forma que agi e pensei a vida toda:é tudo manobra para justificar o mandato internacional sobre esta região que eu considero decisiva para a redenção social do Brasil.

O militares,que estão aí no poder,têm uma concepção,que ficou expressada no livro de Geopolitica de Golbery do Couto e Silva,que propõe tamponar o deserto do centro oeste e do norte transferindo mão-de-obra de outras regiões,notadamente do nordeste.

Não foi outro o escopo da transamazônica.Mas por não haver mudança na estrutura fundiária destas regiões que apoiavam a ditadura ,não resultou em nada.

No meu modo de entender a Amazônia é a solução da fome do Brasil,por seus recursos evidentes e do trabalho,porque estas pessoas que não estão incluidas ,principalmente no sudeste e no sul ,poderiam com ajuda do governo,se estabelecer nesta região e fazê-la produzir.

Mas como sabemos não há capital nacional,puramente nacional capaz de realizá-lo e nem vontade politica.Por diversas razões politicas e históricas escoou-se aquele nacionalismo sadio e não há grupos politicos com iniciativa para tanto.

A iniciativa é deste suposto nacionalismo de direita do Presidente da República e seus apoiadores,que simplesmente acha ótimo explorar a Amazônia junto com a raposa,isto é, os Estados Unidos.

Resisto sempre a especular ,mas é dificil não colocar pelo menos a hipótese de ter sido a provocação contra a Venezuela,a jogada igualmente provocativa,no plano comercial,contra a China,uma manobra urdida pelos EUA,com a anuência subserviente do Brasil,do Brasil da direita,para legitimar esta presnça americana na amzônia,em face do já avançado cerco da China no nordeste e da Rússia,que apóia a Venezuela.O Brasil está cercado.

Continuo não sabendo se houve intenção de guerra biológica neste virus,mas não descarto e exijo investigações e uma conferência internacional para mudar o comportamento da China e prevenir futuras pandemias,possivelmente piores.

Contudo,intencional ou não,tanto a Rússia,como a China e suas vacinas,se bem sucedidas,vão exercer um papel de legitimação de uma papel invasivo destes países no Brasil.



sábado, 5 de setembro de 2020

O que une Thomas Jefferson,Bolsonaro e Guevara

 

Cada um à sua maneira defende que o “ povo” se arme para defender os seus interesses.A polêmica sobre as armas divide a esquerda e direita aqui no Brasil.A primeira se opõe e a segunda defende ,mas ao longo da história estas posições se modificam principalmente no caso da primeira.

Ao defender uma revolução é plenamente justo que o povo use armas para defendê-la ,mesmo que não esteja totalmente preparado para isto e mesmo que tal coisa acabe gerando fenômenos paralelos de criminalidade comum.É impensável para a esquerda que num processo revolucionário o povo não esteja consciente destas diferenciações.

O liberalismo clássico,de Thomas Jefferson,totalmente desconfiado do estado,chega a criar um pensamento que o anula completamente ,ao ponto de o cidadão ter o direito de se prevenir contra ele,como se fosse o estado um criminoso comum,guardando em casa(“ My Home is my castle”[“minha casa meu castelo])uma arma para repelir a sua esperada intervenção, naturalmente ilegítima.

No caso de Bolsonaro é só neonazismo mesmo:trata-se de ganhar dinheiro vendendo armas,a partir de uma ideologia de defesa do cidadão,que tem muito pouco a ver com este liberalismo.

O fato é que vivemos numa época em que os principios sociais,a questão social,estão nas catacumbas.Aquilo que aprendi não só dos comunistas,mas principalmente do iluminismo francês, desapareceu completamente:que existe uma relação entre os gravíssimos problemas que nós enfrentamos com a questão social,coma exclusão,com as injustiças e que não se há de superar isto com armas,mas como a ciência ,o conhecimento e o comprometimento da politica.